"Na Floresta só há silêncio na morte. Quando os homens botam fogo no mundo, incinerando tantos seres na dor excruciante de serem queimados vivos, a Floresta amanhece muda. Não tem paz nesse silêncio, só tem dor, e ela esmaga os ossos de quem ainda respira como num abraço de sucuri. Nesses momentos, cada vez mais frequentes, dói existir. Dói muito. Mas tem tanta sequidão nesse silêncio que os olhos não choram, porque onde falta água é feio esbanjar, mesmo que a fumaça se enfie pelas retinas, sufocando as imagens.
Por isso este samba rasgado do Gil e estas cores ferozmente vivas do Kondo reFlorestam, porque para parar de matar é preciso antes saber viver. A Floresta não é nem árvore nem bicho nem fungo, a Floresta é relação. Entre todos, visíveis e invisíveis, é intercâmbio, devoração, interdependência, contágio. A Floresta nega o binarismo gargalhando. Ela não é isso ou aquilo. A Floresta é isso e também aquilo. Por isso, reFlorestar é muito mais do que plantar árvores. ReFlorestar é se reconectar com a extraordinária conversa dos vivos."
Eliane Brum
Jornalista, escritora, documentarista e diretora da Sumaúma, plataforma de meio ambiente e jornalismo ambiental
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